terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A dificuldade de se encontrar a alma gêmea

Há um grave e silencioso problema social entre homens e mulheres em nosso tempo: o temor de passarem dos 30 anos e ficarem solteiros.

Hoje, de Nova York a Cingapura, passando por Maringá, não conseguir encontrar a alma gêmea, ainda é um problema maior para as mulheres do que para os homens. Em qualquer época e cultura, para elas é mais difícil encontrar um parceiro do que para os homens solitários que, quase sempre, aprendem a se virar como podem.

Se por um lado, é um fato social e mundial da atualidade que vem apontando um acentuado número de solitários, por outro, as mulheres, mesmo sendo uma bem sucedida empresária de NovaYork, ou uma arquiteta em Londres ou, ainda, uma professora em São Paulo, todas sonham encontrar um homem que pudessem amá-las tal como ela é. Uma conhecida empresária americana Laura Stutsky, da Peaple Finders, disse que trocaria o seu sucesso e passaria a ocupar o segundo lugar em relação ao marido, se tivesse certeza que teria a felicidade conjugal.

Pesquisas denunciam que as mulheres, quando não casam, ainda sentem-se estigmatizadas em qualquer cultura ou país. Em todos os lugares do mundo elas são injustamente chamadas de: "titias", "solteironas", "frustradas", "balzaquianas", "vitalinas", "coroas", "passadas", enfim, marcas (estigmas) que uma vez inscritas em sua personalidade, faz com que carreguem o peso simbólico de ficarem para sempre como seres de segunda categoria. Na Índia, exemplo de estigma social mais grave, as mulheres que não conseguem se casar são consideradas uma desgraça para a família.

Os sentimentos do solteiro

Num primeiro momento, as mulheres de 25, 30, 35 anos (conforme o lugar em que vivem) sentem-se pressionadas pela família ou por elas mesmas a fazerem alguma coisa urgente para "se salvarem", mas. Num segundo momento passam a sentir o incomodo ou a angústia de terem sobrado. Quando se escoam as esperanças de casar, a moça tradicional volta-se para a família como um fim em si mesma, onde sente-se que se tornou um fardo pesado e só resta a resignação como consolo. Já aquelas, economicamente independentes, uma vez na condição de "sobradas", podem desenvolver alguma alternativa saudável de vida, como fazem os homens, mas ela ainda não consegue se livrar da família que fica na expectativa de mais cedo ou mais tarde tê-la em casa como um peso. O olhar dos outros, a faz sentir-se menos mulher do que as outras que lograram êxito matrimonial.

Do ponto de vista psicológico, a mulher vítima do solteirismo tende a ficar deprimida, a questionar porque não conseguiu fisgar um marido se uma outra que não é tão bonita, que tem o mesmo peso que ela, conseguiu? Essa mulher se vê repetidamente questionando sua auto-imagem, o seu destino como trágico, a sua auto estima poderia ir se declinando com o avançar da idade e, se nada acontece, termina acentuando alguns sintomas. Algumas ficam com raiva do destino cruel, outras simplesmente reorientam-se a aprimorar sua carreira profissional, onde costumam excederem-se no tempo integral de dedicação exclusiva às tarefas do trabalho. Tornam-se pessoas de um único assunto e por isso tidas como chatas. Também com o passar dos anos, muitas abandonam os traços de feminidade, de graça ou leveza. Tornam-se rígidas, metódicas, bisbilhoteiras e moralistas. As de costumes antigos terminam vivendo pelos cantos, às escondidas, mas as pós-modernas, que se sentem mais ou menos livres, adotam o jeito masculino de viver competitivamente, encarando o quanto é bom ter liberdade para ir encontrar-se com quem deseja, ou viajar à hora que quer sem dar satisfação para homem nenhum, namorado ou marido que seja.

Em países de vida urbana anônima, muitas dessas mulheres pós modernas ou avançadas aplacam suas carências afetivas participando, ora de um leilão de homens para passarem uma noite ou aproveitam as tendências sexuais adormecidas e inventam-se homossexuais (falsas homossexuais) como protesto aos homens que as rejeitaram, ou ainda, simplesmente vão ao banco de esperma comprar um embrião para ter um filho extraído de afogadilho, enfim, uma promessa de preenchimento do vazio existencial.

Como se viram?

Conforme a cultura e a demanda, algumas buscam reprojetar suas vidas em espaços psicanalíticos e psicoterapeuticos. Lá, timidamente, revelam o quanto é doloroso viver nessa condição de "passadas" e perguntam: "por quê tinha que ser eu?" Dizem sofrer muito com a sensação de que o tempo está escoando e nada... Datas como o Natal, Páscoa, ou ocasiões em que são mostrados fotos de famílias, ou ter que participar de encontros com filhos e netos dos outros, uma frustração inevitável que as fazem pensar: "Não tenho a minha própria família, não tenho filhos e nem sequer um marido ou namorado".

Também, começa a perceber que com o passar do tempo, não há mais aquele grupo de amigos solteiros com quem costumeiramente se encontrava. "Eles foram se casando e, hoje, vivem com suas famílias. Também, a gente não mais deseja encontrar-se com várias pessoas, mas com uma em especial - o príncipe encantado". E torna-se cada vez mais difícil encontrar a pessoa certa quando se passou dos 30. E, ainda há os problemas que essa mulher tem que enfrentar: "quando estou passeando sinto como que estivesse escrito na testa: 'Quero alguém, rápido'". A partir de uma certa idade (30 anos), muitas mulheres tem a sensação que sua condição de "solteirona", em vez de atrair, termina pondo em fuga os homens. (Obs.: essas falas foram colhidas na reportagem "30 e poucos", da tv inglesa Channel 4) .

O solteirismo, um problema mundial

Casamento e solteirismo podem ser assuntos pessoais, mas estão dando margem para pesquisas e reportagens especiais na mídia do mundo todo. As estatísticas não são nada animadoras. Em Cingapura, o centro financeiro da Asia, de cada 100 mulheres de nível universitário, 40 nunca se casarão. É uma projeção não somente atribuída ao destino cruel, mas sobretudo porque as mulheres asiáticas que estudaram o 3o grau, graças a política do governo e hoje possuem uma promissora carreira profissional, não querem continuar a tradição de se casarem para ser submissas ao marido tal como suas antepassadas mães e avós. Essas mulheres independentes se dizem mais felizes com suas carreiras profissionais do que se tivessem vivendo um casamento problemático.

Recentemente, o primeiro ministro de Cingapura, Lee Kuan Yen, pediu em cadeia de televisão para que as mulheres voltassem a ter interesse em casar e ter filhos por patriotismo, pois a nação corre sério risco de não ter a necessária substituição populacional, daqui a 30 anos. O governo até chegou a criar um serviço de promoção de encontros e um "barco do amor", onde especialistas organizam palestras, viagens e cruzeiros de aventura para lugar nenhum, apenas com intuito de aproximarem casais. Parece que está conseguindo poucos resultados.

Outros países criam leis protetoras das mulheres que não se casaram, onerando os solteirões com pesados impostos que reverterão a favor das moças que ainda investem na esperança de arrumar um marido. Em algumas regiões da África, moças em fase de risco de ficar sem casar, ainda são levadas à leilão por baixos preços.

Nos EUA, há cinco mulheres solteiras para cada homem disponível. Disse uma revista novaiorquina que, "as chances de ser atingido por um ato terrorista nessa cidade são praticamente idênticas que uma mulher encontrar um marido" (isso antes do ataque de 11 de setembro, aos edifícios, em Nova York). Há uma crença em países de primeiro mundo, que as mulheres bem sucedidas na profissão tendem a não serem felizes nos seus relacionamentos afetivos e sexuais.

Segundo os especialistas que "treinam" mulheres para aprenderem a seduzir, laçar, casar e manter o casamento, as mulheres bem sucedidas provaram serem fortes nos negócios, chegaram ao topo de suas carreiras com carro e casa próprios, enfim, todo o conforto, mas há um problema que precisa ser corrigido: devem resgatar sua feminidade, investir na sensualidade, melhorar sua auto-estima e, principalmente, serem passivas em relação ao homem.

Uma expert no assunto, não esconde o posicionamento conservador, quando declara que: o estilo "duro" das mulheres bem sucedidas funciona na sociedade competitiva, no trabalho, na universidade, no comércio, etc, mas no âmbito do relacionamento amoroso é um tremendo fracasso. Essas mulheres acostumadas ao estilo viril, quando voltam para casa não sabem como serem meigas com seus parceiros e filhos. A revolução sexual, o movimento feminista fez as mulheres irem à luta e conseguiram vencer na sociedade, mas ainda pagam um alto preço quanto a felicidade conjugal e maternal. Por seu lado, o desejo secreto do homem de qualquer cultura, do 1o ao 3o mundo, é de estar em 1o plano e ter uma mulher atrás dele, isto é, uma esposa passiva, bela, jovem, compreensiva, alegre e que ainda seja boa mãe. [sic!].

Ao que parece, os homens tendem a fugir de mulheres que são agressivas no primeiro encontro, como que quisessem devorá-los; também as que se revelam muito inteligentes ou interpretativas dos segredos do homem, não revelando-se quem verdadeiramente são e o que querem do homem, terminam pondo os homens para correr. Os homens são herdeiros de um mito muito antigo, um complexo cujo fundo inconsciente consiste no temor de perder algo seu muito importante para essa mulher predadora, guerreira, fatal, competitiva, em relação ao homem. Muitos casados ao descobrirem o alto preço que estão pagando em viver com esse estilo de ser mulher - supermulher- terminam perdendo o tesão por ela, talvez uma reação de defesa made in inconsciente para evitar perder seu precioso objeto fálico para a voracidade sem limites da fêmea fatal, siliconada ou bem sucedida nos negócios.

Segundo o Padre Antonio Vieira (não o autor dos Sermões, mas o que escreveu "O verbo amar e suas complicações" (Ed. Record) "a humanidade está dividida entre os que se julgam infelizes porque não se casaram, e outros que maldizem a sorte porque se casaram".

De qualquer forma, tanto a Bíblia como as pesquisas científicas sobre as causas da depressão, do suicídio ou dos efeitos da solidão, tem uma só recomendação: "Apaixonar, amar, namorar e casar, ainda é preciso. Viver, também".

Hipóteses e dúvidas sobre o por quê as mulheres não casam:

1º . Hipótese sociológica: o meio cultural não vem desenvolvendo situações sociais que promovam encontros, que aproximem pessoas, que facilite o "clima" pró paixões amorosas e desejos de viver juntos. Até os anos 70, nas cidades do interior do Brasil, haviam os footings onde as pessoas -a maioria, 70 %, vindas da roça- flertavam umas com as outras, apesar de ser uma época em que imperava o sentimento de vergonha e desconhecimento do homem em relação a psicologia da mulher e vice-versa. Hoje, sem o footing, restam os points, as lanchonetes, os clubes, na maioria dirigidos para jovens, infelizmente, não para pessoas acima dos 30. Para pessoas bem avançadas, ainda há opção das agências de casamentos e a Internet.

2º Hipótese psicológica: essas pessoas possivelmente desenvolveram uma fantasia extremamente glamourosa ou muito romântica de amar e de ser amada por alguém, mas impossível de encontrar essa correspondência na realidade. Assim, qualquer um que se aproxime dela, por mais interessante que seja, estará sempre aquém de sua exigente fantasia.

3º. Hipótese psicológica: essas mulheres, por um lado, teriam inventado tantas exigências quanto aos atributos dos possíveis pretendentes, e por outro, refém de sua estrutura psíquica narcísica onipotencial, jamais seriam autorizadas a apaixonarem por alguém. Como disse Caetano Veloso, "Narciso acha feio o que não está no espelho". São mulheres que sentem-se muito melhores do que qualquer homem que apareça para elas. No entanto, há dúvidas que lhes assaltam em algum momento, como aquela: "Porque sou tão maravilhosa é que me faz continuar solteira?"

4º. Hipótese Psicanalítica: Atribuir a culpa ao destino que a escolheu para não casar, é falso. Mas, se por vários pontos de sua história pessoal que inconscientemente determina que encontre uma solução de compromisso de algum conflito, fazendo-se solitária, ou seja, de concluir um "auto-engano" ser melhor ficar só que mal acompanhada?

5º Uma hipótese sócio-psicopatológica quanto aos homens: Estaria aumentando na sociedade o números de homens que sofrem de fobia de casamento: que tem medo, angústia ou pavor de casar porque teria que assumir metade dos riscos; teria que tomar a decisão que poderia ser a errada. O homem de nosso tempo estaria ficando fóbico quanto ao casamento, porque não foi educado para enfrentar o cotidiano dessa "nova" situação e de seus problemas.



RAYMUNDO DE LIMA

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